Análise do Terceiro Episódio de The Last of Us: Reflexões Sobre o Ritmo e as Mudanças
Tenho acompanhado a adaptação de *The Last of Us* desde o início da segunda temporada e, em geral, sou defensor das liberdades criativas tomadas. Acredito que adaptações existem para adaptar, e mudanças na ordem cronológica, inserção de novos fatos e pequenas alterações são bem-vindas. Até o momento, a direção criativa geral da série tem se mostrado muito positiva.
No entanto, após o segundo episódio, que foi um momento dramaticamente impactante e muito bem executado, a chegada do terceiro episódio pareceu trazer um respiro narrativo alongado demais. Não se trata da falta de ação, algo que sempre existiu no ritmo da série desde a primeira temporada, mas sim da forma como essa pausa foi estruturada.
O respiro é necessário, e muitas vezes positivo, para que os personagens e o público possam absorver o que aconteceu, refletir e compreender os eventos recentes. Contudo, neste episódio, a pausa veio acompanhada de inserções criativas e cenas que não existiam no material original do jogo. Para mim, o desdobramento do conselho e toda a trama paralela se mostraram desnecessários, fazendo com que a narrativa saísse do ponto inicial e voltasse a ele ao final do episódio, em cerca de uma hora de conteúdo.
Embora eu ame a série, se for para expressar minha opinião de forma sincera, este ponto específico me incomodou um pouco.
A Pausa Pós-Traumática e as Justificativas Narrativas
O episódio nos mostra Ellie acordando três meses depois, e há pouca explicação sobre os danos físicos que ela sofreu devido aos chutes de Abby. Podemos supor que ela teve lesões internas, como costelas quebradas ou pulmão perfurado, o que justificaria sua debilidade prolongada. Soma-se a isso o peso emocional e a terapia, introduzida através da personagem original da série, Gale.
Apesar de eu não ser um “hater” das mudanças, e entendendo que a pausa de três meses é justificável – especialmente considerando o ataque a Jackson e a necessidade de Tommy gerenciar o caos e o luto após a morte de Joel –, estendi um pouco o meu julgamento sobre o alongamento do ritmo.
Os três meses de pausa servem para diluir um pouco o luto e as prioridades de Tommy, que precisava reconstruir a cidade e não pôde sair imediatamente em patrulha com Ellie. Além disso, essa passagem de tempo oferece uma justificativa maior para Ellie ir direto a Seattle, sem o risco de encontrar o grupo que ela pretendia eliminar no caminho.
O “Make-Believe” de Ellie e a Figura de Gale
Um ponto que considerei problemático foi, a partir do momento em que Ellie acorda, a narrativa focar intensamente em Ellie tentando convencer a si mesma e aos outros de que não estava agindo por vingança. Isso pareceu um grande “faz de conta” ou *bullshit*, pois a revolta estava explícita no episódio anterior. Tentar apagar essa emoção com pretensão de gerar mistério sobre se ela iria ou não em busca de vingança não adicionou tensão narrativa suficiente para justificar meia hora de desenvolvimento.
Por outro lado, a inserção de Gale como psicóloga é bem-vinda. Embora no jogo Gale seja apenas citada ou vista em fotos, na série ela se torna um suporte narrativo crucial, servindo para verbalizar aspectos que no jogo ficam implícitos. Por exemplo, no diálogo com Tommy, Gale revela que a motivação de Joel ao salvá-la (o que seria problemático para a própria Ellie) era um erro, e não há uma resposta clara de Joel sobre o porquê de ele ter se afastado dela.
Em um cenário pós-apocalíptico, ter um suporte psicológico é algo que faria sentido para qualquer um. As pistas dadas por Gale sobre o afastamento de Joel, que parecem inúteis para quem já conhece a história do jogo, servem para quem é novo na narrativa, ajudando a destrinchar a camada humana sob o caos. Gale, inclusive, diz a Tommy que Ellie é uma mentirosa, expondo quem ela realmente é após a perda.
O Conselho e a Democracia Social
A cena do conselho, onde Ellie pede que algo seja feito e um grupo seja deslocado, me pareceu um desperdício de tempo. Isso serve para mostrar que existe uma organização social em Jackson, que as decisões são tomadas em uma espécie de democracia.
No jogo, a reação de Tommy, que é muito mais passional do que na série, é imediata: ele pede um dia para organizar as coisas e sai sozinho, movido pela vingança e sem o peso de Jackson estar devastada (como aconteceu na série). A série justifica a ausência de Tommy na caçada inicial com a necessidade de proteger a comunidade, o que é uma adição compreensível, mas que enfraquece a figura do personagem em relação ao material original. A ideia de que o conselho era necessário para aprovar o deslocamento de 16 pessoas pareceu exagerada.
Dina e a Dinâmica em Seattle
A jornada de Ellie e Dina é um ponto alto do episódio. A química entre as duas é muito boa e crescente, mesmo em um curto espaço de tempo. A série adapta a cena da estufa de ervas, onde a pergunta sobre a nota do beijo é feita, mas inverte a pontuação: na série, Ellie quem dá a nota seis.
Essa sutileza torna o relacionamento delas mais sutil, e as personagens parecem mais jovens do que no jogo, o que pode ser uma escolha para justificar a diferença de tom em alguns diálogos, que estão mais leves e divertidos, contrastando com o drama iminente.
Em Seattle, vemos Ellie encontrar a casa de Joel, ver seu trabalho de marcenaria e pegar sua pistola e o relógio, um objeto de forte associação com Joel e sua primeira filha perdida. O fato de não haver menção ao violão parece prenunciar um flashback no próximo episódio.
O episódio também introduz os **Serafitas** (embora o nome não seja citado explicitamente), um grupo que se veste diferente, com cicatrizes nas bochechas, e usa assobios para comunicação. Eles são apresentados como inimigos do grupo Wolf, que Ellie e Dina estão caçando. O massacre desse grupo de Serafitas, com corpos espalhados pela floresta, provoca uma reação forte em Dina, que vomita, indicando que ela não está acostumada com tamanha violência. Isso reforça a expansão do mundo além dos grupos já conhecidos.
Considerações Finais sobre o Ritmo
O episódio se resume a: acordar, luto, conselho, conversa, saída e chegada em Seattle. É um episódio de transição, com pontos interessantes e fofos, mas que, na minha visão, foi arrastado demais. Com apenas quatro episódios restantes, a pausa parece ter tirado um pouco do impacto que a perda de Joel deveria causar e que a história de vingança exige.
Ainda assim, a série se mantém em um bom patamar geral. É necessário que a trama engate nos próximos capítulos para compensar esse ritmo mais lento.
Quanto à atriz que interpreta Ellie, é importante separar a atuação das decisões de roteiro. Ela atua muito bem, seguindo a direção dada, e é melhor suavizar a raiva do público (que no jogo foi muito intensa contra Abby) para manter a saúde da recepção da série.
A produção visual e a trilha sonora continuam impecáveis.
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Perguntas Frequentes
- Como a inserção de Gale na série afeta a história original?
Gale, introduzida como psicóloga, serve como um suporte narrativo para verbalizar motivações e contextos que eram mais implícitos no jogo, como os motivos do afastamento entre Joel e Ellie. - O que justifica a pausa de três meses entre o segundo e o terceiro episódio?
A pausa é justificada pela necessidade de Ellie processar o luto e pela urgência de Tommy em gerenciar a reconstrução e a segurança da comunidade de Jackson após o ataque. - Qual a diferença na representação da relação entre Ellie e Dina neste episódio em comparação com o jogo?
A química entre as duas é mantida, mas a série torna o relacionamento mais sutil, com diálogos adaptados e uma dinâmica um pouco diferente, mas ainda crescente e funcional. - Por que o episódio focou tanto no conselho de Jackson?
O foco no conselho serve para demonstrar a estrutura social democrática de Jackson e o processo de tomada de decisão comunitária, contrastando com a ação imediata vista no jogo. - É possível que o ritmo lento do episódio seja intencional?
Sim, pode ser intencional para criar um contraste com os eventos mais dramáticos que estão por vir, além de dar tempo para a personagem Ellie lidar com o trauma inicial da perda.
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