Griffith Nunca Quis Ser Um Vilão

griffith nunca quis ser um vilao

Berserk é inegavelmente uma das obras mais aclamadas de todos os tempos no universo dos mangás. Para alcançar tamanha notoriedade, é fundamental possuir personagens extremamente bem desenvolvidos. Este é o caso tanto do protagonista, Guts, quanto do antagonista, Griffith. Surge, então, um questionamento provocador: será que Griffith era realmente tão vilanesco assim?

Muitos podem se surpreender com a dúvida, visto que ele é frequentemente citado como um dos vilões mais odiados dos animes. Buscaremos redefinir a questão: Griffith era de fato um vilão até o Eclipse? Este ponto é crucial para uma análise completa, pois muitos leitores não o enxergam como um todo coerente.

Neste artigo, vamos repassar toda a trajetória de Griffith até o sangrento Eclipse, com o objetivo de determinar se ele já era um antagonista naquele momento fatídico.

A Origem e a Ambição de Griffith

Não há muitos detalhes sobre a infância de Griffith, mas sabe-se que ele era um órfão que cresceu nas ruas da cidade. Nessa fase, ele já nutria grandes sonhos de grandeza. Além de ser notavelmente bonito, o que atraía a atenção de muitos, ele almejava algo muito maior: ter a sua própria nação. Uma cigana havia, inclusive, profetizado que ele se tornaria alguém grandioso.

O mundo de Berserk é sujo, pesado e brutal, repleto de injustiças e violência. Griffith, sendo um jovem muito bonito, certamente enfrentou muitos desafios durante seu crescimento. O que se destaca é sua obsessão, não apenas pelo seu sonho, mas também pelo poder. Acredita-se que essa característica esteja ligada ao apelido que recebeu: Falcão.

Ele possuía uma visão muito além do comum, sendo capaz de identificar pessoas, oportunidades e vislumbrar o futuro com clareza, algo que é valorizado até hoje como a capacidade de visualizar sonhos. Griffith era, nesse aspecto, um verdadeiro visionário.

Além disso, ele era uma verdadeira força da natureza, combinando carisma, boa aparência, postura, uma força física gigantesca, obsessão e a disposição para fazer o que fosse necessário para alcançar seus objetivos.

A Formação da Tropa do Falcão

Griffith começou a reunir pessoas, formando um grupo de delinquentes. Curiosamente, esses indivíduos eram, em sua maioria, marginalizados pela sociedade, aqueles que não tinham muitas oportunidades. Com ele, encontraram um ambiente seguro (entre aspas) ou, no mínimo, familiar.

Foi ali que ele começou a construir a Tropa do Falcão. Sua competência militar o fez desenvolver-se rapidamente, não apenas por suas habilidades físicas em combate, mas também por sua estratégia. Ele era verdadeiramente diferente, mesmo sem possuir poder ou títulos; ele era apenas alguém altamente qualificado no que fazia, um verdadeiro general de guerra.

Essa “bola de neve” foi crescendo. Ele montou um bando com pessoas qualificadas que ele escolhia e desenvolvia. Somado ao seu carisma extremo, todos confiavam nele completamente, fazendo com que seus planos mais mirabolantes dessem certo. O sucesso parecia inevitável.

Financiamento e Conquistas

Para financiar o exército, Griffith praticamente se vendia, obtendo benefícios ou recursos para que a Tropa do Falcão continuasse a crescer. Isso provavelmente ocorreu mais de uma vez, levantando a questão: era apenas por dinheiro ou também por favores e benefícios militares e sociais?

O céu era o limite para sua ambição. O interessante, no entanto, é como sua visão lhe permitia atrair as pessoas certas para o seu lado. E como ele fazia isso?

Ele as testava. Griffith não era apenas um benfeitor que reunia pessoas por bondade. Ele precisava de um arsenal, de um exército forte. Isso se manifestou de forma clara no caso de Corkus (aqui referida como “Casca” em alguns momentos da transcrição inicial, mas o contexto aponta para o desenvolvimento de membros do bando). Tomemos como exemplo a história de uma jovem que foi vendida por um nobre para sofrer maus-tratos.

Quando ela se rebela e foge, Griffith intervém durante a perseguição, entregando-lhe uma espada e dizendo:

“Olha, se você quer se defender, então você tem que se defender. Você tem que ser forte e estar disposta a fazer o que precisa ser feito.”

A jovem segue seu conselho, mata o nobre e se encanta com Griffith, não apenas por sua beleza, mas por sua postura. Ela o enxerga como um anjo, uma figura celestial, seu salvador. Essa paixão platônica ia além de amor ou desejo; era uma idolatria.

Ela admirava Griffith em termos profissionais e o desejo de servi-lo apenas crescia junto com a ilusão de que ele estava em um patamar superior.

Todo esse desenvolvimento e manipulação resultaram em um bando muito forte, com indivíduos prontos para servir ou fazer o necessário. É possível traçar uma analogia, onde os “olhos do Falcão” identificavam quem era o mais adequado, explorando sua capacidade de visão além do alcance.

A Chegada de Guts

É neste ponto que Guts entra em cena, um mercenário que enfrenta um soldado inimigo muito forte e chama a atenção de Griffith. Inicialmente, os membros do bando queriam roubá-lo, e Griffith permitiu, pois acreditava que Guts seria capaz de derrotar seus soldados. Isso é cruel, pois Griffith estava testando a força de Guts, e mesmo acreditando em sua vitória, não impediu o conflito.

Guts demonstra sua força, impressionando até mesmo Corkus (ou Casca, dependendo da interpretação de quem está se referindo), que era uma mulher fora da média em termos de habilidade. Griffith fica encantado com a força e a postura de Guts. Ele era fora da curva em todos os aspectos, especialmente por empunhar uma espada gigantesca, do seu próprio tamanho, o que demonstrava imensa força e valor, sendo ele ainda um garoto com grande potencial de evolução.

Griffith então pensa: “Eu quero esse cara no meu time”. Mas isso sugere algo mais profundo. Embora muitos neguem, há quem acredite que havia um amor platônico ali, um carinho especial de Griffith por Guts. E o envolvimento posterior de Guts com Casca, mais adiante na história, o magoou profundamente.

Griffith conquistou Guts inicialmente através de uma aposta, onde Guts o derrotou. Posteriormente, ele ganhou o respeito e a amizade de Guts, que passou a realizar missões extras e sinistras para ele. Contudo, após uma conversa com a princesa, Griffith afirmou que não considerava ninguém da Tropa do Falcão seu amigo. Naquele momento, ele estava prestes a conseguir o que queria: seria nobre, o bando seria reconhecido, e ele provavelmente ganharia um reino ou uma cidade para administrar.

Ele estava muito mais perto de seu objetivo do que imaginava. Embora a linha do tempo possa parecer confusa, o importante é entender os conceitos para julgar se ele era um vilão até aquele ponto.

Sendo sincero, a declaração para a princesa sobre não ter amigos é típica daquele tipo de fala superficial, dita “para inglês ver”. Griffith demonstrava muita preocupação com Guts em diversos momentos. Por exemplo, quando estava na retaguarda do exército e saiu de sua posição apenas para verificar se Guts estava bem. Mais notavelmente, quando Guts enfrentou Zodd e Griffith arriscou sua vida e seu sonho para socorrê-lo.

Isso demonstra que Guts era mais do que uma ferramenta. Ninguém arriscaria a própria vida ou o próprio sonho para proteger apenas uma ferramenta.

É evidente que Griffith nutria um apreço sentimental por Guts, maior que o de um amigo. No entanto, ele se colocava acima de tudo isso, pelo menos em seu discurso, para não demonstrar fraqueza, talvez por ego ou por não querer admitir para si mesmo.

A Traição e a Transformação

Quando Guts percebeu o discurso equivocado de Griffith e a falta de reciprocidade em relação aos seus sonhos, isso o magoou profundamente. Guts, que teve uma infância sofrida, sentia-se parte de algo. Ao entender que Griffith não o considerava um amigo porque não vivia seus próprios sonhos, Guts tomou a decisão de deixar a Tropa do Falcão.

A partir daí, as coisas enlouqueceram, pois Griffith era extremamente egoísta. Ele viu Guts duplamente: como uma ferramenta insubstituível para a força do seu exército, e também como a perda de uma pessoa importante para ele. Com convicção de sua superioridade, ele desafiou Guts mais uma vez.

O mundo de Griffith desmorona. Apesar de toda a sua construção, de seu carisma e suas conquistas, sua força física e habilidade com armas não se comparavam a Guts. Ele foi brutalmente derrotado pela força de Guts, que evoluiu enormemente. Naquele momento, Griffith se sentiu inferiorizado, abandonado e traído. Sendo uma pessoa tão egocêntrica e narcisista, isso foi um golpe duríssimo, levando-o a tomar atitudes impulsivas.

O foco é saber se ele era vilão até o Eclipse. Apesar das atitudes erradas, como vender o corpo ou tomar decisões egoístas, aquilo era, no fundo, humano. O que define um vilão é a trama para o mal. Em um contexto de guerra ou de vida militar, especialmente na Idade Média (cenário de Berserk), certas atitudes são “passadas em pano”.

Até aquele momento, por ser completamente honesto com seu bando, por cuidar de Guts, e pela generosidade e carinho demonstrados, ele era visto como um excelente líder. Definitivamente, até aquele ponto, ele não era um vilão.

A transformação não ocorreu nesse instante. Ele se deixou levar pela possessão, seduziu a princesa e foi capturado, sofrendo tortura incessante por cerca de um ano: teve a língua cortada, os nervos cortados, vivendo a dor em sua mente isolada.

Tudo isso afetou sua mente. Normalmente, canalizamos nossa raiva em terceiros, e essa canalização foi direcionada a Guts, pois Griffith sabia que seu descontrole começou quando abandonou Guts. Na perspectiva de Guts, ele apenas buscava um sonho e desejava ser considerado um amigo de Griffith.

Antes de concluir sobre a tortura, é interessante o contraste: Guts é visto como um herói por lutar por justiça ou vingança, mas sua agressividade e brutalidade o fazem parecer um demônio, coerente com o nome Berserk (guerreiros vikings brutais, como se possuídos).

Enquanto isso, Griffith usava cores claras, era delicado, carismático, sedutor e cordial, parecendo uma figura angelical. Esse contraponto entre o anjo (Griffith) e a figura demoníaca (Guts) é amarrado de forma interessante na obra, fazendo o leitor se apaixonar pela complexidade da narrativa.

O Eclipse

Voltando à tortura: Guts descobriu o paradeiro da Tropa do Falcão e resgatou Griffith. Mesmo debilitado e com Casca disposta a abrir mão do romance com Guts para cuidar dele, Griffith só conseguia sentir ódio.

Primeiro, pelo seu psicológico quebrado devido à tortura incessante. Segundo, por ter sido abandonado por Guts, colocando toda a culpa nele. Terceiro, porque uma pessoa que antes o idolatrava (Casca) agora nutria um afeto maior por seu inimigo.

Essa junção de fatores não o transformou em vilão naquele momento, mas preparou o caminho para a atitude que ele desejava tomar, já que ele nem conseguia mais se matar.

No momento mais trágico, o Eclipse, ele teve que fazer uma escolha: o bando ou seu sonho. A escolha era, de certa forma, única, pois ele não tinha mais vida. A Tropa do Falcão representava sua família, a família que sentia ter sido traída por Guts, e Griffith já não tinha capacidade física para sobreviver por conta própria.

O Eclipse não foi apenas a realização de um sonho, mas uma salvação e a possibilidade de concluir sua vingança. O momento em que ele decide virar as costas para sua “família”, para um bando de inocentes que o serviram lealmente, é aí que ele se transforma em um vilão.

Não podemos crer que ele construiu tudo aquilo apenas para sacrificar no final. Ele não sabia qual era o pré-requisito para concluir seu desejo. Se ele entregou a Tropa do Falcão para sacrifício, é porque, de alguma forma, eles eram importantes para ele.

Após a transformação, o que ele fez com Casca na frente de Guts foi sinistro. Contudo, mesmo querendo demonstrar força e machucar Guts, ele ainda possuía algum afeto, pois, caso contrário, já o teria matado há muito tempo.

Portanto, ele se tornou um vilão, mas não nasceu assim. Como qualquer pessoa, a conjunção certa de traumas e mágoas pode corromper. Isso o torna mais humano do que vilão até ele se transformar. Depois disso, a responsabilidade é dele.

Perguntas Frequentes

  • O que significa o termo “Berserk” no contexto da obra?
    Refere-se a guerreiros absurdamente poderosos, como vikings, que lutavam em batalha de forma brutal, como se estivessem possuídos.
  • Qual a principal característica que diferencia Griffith de Guts?
    Griffith é retratado com cores claras, sendo delicado, carismático e sedutor, quase como uma figura angelical, enquanto Guts é brutal e agressivo, representando uma figura demoníaca.
  • Por que Griffith demonstrou preocupação com Guts mesmo após o desentendimento?
    Apesar de seu discurso de que não tinha amigos, ele demonstrou apreço sentimental por Guts, chegando a arriscar seu sonho e sua vida para socorrê-lo em batalhas importantes.
  • É possível que Griffith fosse um vilão antes do Eclipse?
    Até o momento do Eclipse, ele era considerado um excelente líder, honesto com seu bando e cuidadoso com Guts, não se enquadrando no perfil de quem trama o mal de forma deliberada.
  • Qual o fator decisivo para a transformação de Griffith em vilão?
    A decisão de virar as costas para a Tropa do Falcão, um bando de inocentes que o serviam lealmente, durante o Eclipse, para satisfazer seu sonho, marcou sua transição para a vilania.

Espero que tenha gostado desta análise mais aprofundada sobre a trajetória de Griffith. Toda honra e glória a Deus.