A Decadência de Tokyo Ghoul Explicada

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A Decepção de Tokyo Ghoul: Quando a Adaptação Destrói um Clássico

Alguns animes começam com uma promessa imensa. É o caso de *Tokyo Ghoul*, que após uma primeira temporada aclamada, com uma qualidade que agradou muitos e uma abertura inesquecível, viu sua trajetória mudar drasticamente. A segunda temporada e sua continuação, sinceramente, pareciam ter sido melhores se nunca tivessem acontecido.

Neste artigo, exploraremos mais um caso de decepção no mundo das animações, diretamente ligado a uma má adaptação do mangá para as telas. Analisaremos como a obra foi impactada e por que a percepção do público sobre o anime pode ser drasticamente diferente daquela que se teria ao acompanhar apenas a história original nas páginas do mangá.

O Início e o Contexto do Mangá

*Tokyo Ghoul* chegou em 2014 como anime, mas sua fonte original, o mangá, já estava sendo escrito desde 2011. O autor já estava concluindo a narrativa quando a adaptação animada foi lançada.

Quando o anime estreou em 2014, o mangá original de *Tokyo Ghoul* já estava finalizado. Essa era uma excelente notícia para o estúdio responsável pela animação, o Pierrot. Embora o estúdio nem sempre seja lembrado pelas melhores animações, na época, ele tinha um histórico de grandes sucessos mundiais, como *Naruto* e *Bleach*. Mais recentemente, tem mantido o trabalho em *Bleach* e entregado um bom resultado no arco final. Portanto, o Pierrot não parecia um nome ruim para adaptar *Tokyo Ghoul*.

A Demografia e a Profundidade da Obra

A obra se insere na demografia *Seinen*, visando um público mais velho, composto por jovens adultos. Mangás *Seinen* frequentemente apresentam uma linguagem mais aprofundada na construção de seu universo e personagens, abordando, por vezes, questões filosóficas, políticas ou sociais complexas. *Tokyo Ghoul* possuía essa profundidade em sua escrita.

É claro que a escolha da revista onde um mangá é publicado (seja *Shonen*, *Seinen* ou outra) envolve muito marketing e busca por melhor saída comercial. Contudo, essa decisão sempre se baseia em um estudo do público-alvo.

Se você assistiu ao anime, mesmo à primeira temporada, que é considerada boa, você diria que essa é uma história voltada estritamente para jovens adultos? Não parece tanto, certo? Talvez aqui comece um dos problemas e o motivo pelo qual as pessoas associam essa má adaptação ao estúdio Pierrot.

O Pierrot é historicamente conhecido por adaptar histórias de revistas *Shonen* – sucessos voltados para o público mais jovem. Essas obras costumam ter:

* Foco em personagens mais jovens.
* Mais poderes e menos foco em discursos sociais ou filosóficos profundos.
* Maior tendência à censura e menos violência explícita.

A Primeira Temporada: Um Início Promissor (com Ressalvas)

*Tokyo Ghoul* chegou com 12 episódios na primeira temporada. O trabalho foi muito bem executado, incluindo a memorável abertura que ecoa até hoje.

Mesmo com várias censuras – cenas que no mangá eram muito mais viscerais, grotescas e explícitas –, a primeira temporada trouxe uma mudança de perspectiva. Era um anime que os jovens abraçavam, mas que apresentava um protagonista mais perturbado: Kaneki, que foi torturado, teve o cabelo mudado devido à síndrome ligada ao sofrimento que ele suportou (o que lembra a Síndrome de Maria Antonieta).

O universo apresentado era rico, introduzindo termos novos como *Ghoul*, *Kakuja*, *Kakuh*, e *Células RC*. O conjunto – animação bem feita, personagens carismáticos e esteticamente interessantes – parecia perfeito para uma temporada inicial consolidada e de sucesso, estabelecendo o nome *Tokyo Ghoul*.

Embora haja quem critique a primeira temporada por simplificar ou omitir certos desenvolvimentos de personagens e linguagens do mangá, como um produto isolado, ela funcionou bem.

A Segunda Temporada e o Desvio de Rota

Quando *Tokyo Ghoul* desandou? A virada ocorreu na segunda temporada. Lembre-se que o mangá estava finalizado quando a primeira temporada foi ao ar. Quando a segunda temporada chegou anos depois, o estúdio tinha todo o material original para adaptar a história corretamente.

Adaptações sempre envolvem escolhas: podem ser feitas mudanças pontuais, omissão de um arco ou personagem, ou simplificações devido a orçamento e tempo reduzidos, deixando a narrativa mais superficial. No entanto, mudar a essência dos personagens é problemático.

A segunda temporada mudou radicalmente o caminho do mangá. Enquanto no mangá Kaneki, após ser torturado por Jason e abraçar seu lado *Ghoul*, decide sair da Anteiku para formar sua própria associação com aqueles que lhe eram fiéis, no anime ele se une à Aogiri, a organização terrorista que o torturou, aliando-se aos mesmos seres que ele tanto abominava.

Essa escolha não faz sentido lógico, pois vai contra a essência do personagem que estava em desenvolvimento. O anime fez Kaneki parecer ter enlouquecido a ponto de ir contra si mesmo. Embora o personagem já estivesse desenvolvendo um ego nascente e uma ambição maior no mangá, a mudança abrupta para se juntar ao inimigo foi uma deturpação grave de sua jornada.

Tokyo Ghoul:re e a Tentativa Falha de Correção

A situação se complicou ainda mais com a chegada de *Tokyo Ghoul:re* em 2018, a continuação direta do universo, que começou a ser escrita logo após o fim da série original. O mangá de *Tokyo Ghoul:re* tinha mais de 170 capítulos para serem adaptados em apenas 24 episódios de anime. Se a primeira série já foi acelerada, a continuação foi ainda mais.

O *mangá* de *Tokyo Ghoul:re* inicia com Kaneki não se identificando como tal, usando o nome Haise Sasaki e fazendo parte de um grupo de *Quinx*. Para quem acompanhava o mangá de forma cronológica, esse mistério era revelado gradualmente. Para quem viu apenas o anime anterior, era impossível entender o contexto.

As mudanças drásticas feitas na segunda temporada causaram um grande problema: quando *re* chegou, o estúdio precisou remendar buracos criados pela sua própria adaptação anterior.

Um ponto crucial é o destino de Hide, amigo do protagonista. No mangá, após a luta, há uma tela preta. Kaneki acorda com sangue doce nas mãos, com a terrível percepção de que pode ter ingerido o próprio amigo, gerando culpa e nostalgia. No anime, Hide simplesmente falece devido a uma hemorragia decorrente da luta, sem ambiguidade.

A série animada deixou pontas soltas na segunda temporada, e a adaptação de *Tokyo Ghoul:re* seguiu esse caminho confuso.

A Confusão da Continuidade

Ao tentar adaptar *Tokyo Ghoul:re* de forma fiel, o estúdio não tentou corrigir as mudanças absurdas da segunda temporada. Isso resultou em uma “salada de frutas” de acontecimentos para quem acompanhou apenas o anime.

A aceleração dos mais de 170 capítulos de *re* em 24 episódios foi extrema. A obra original, especialmente no final, possui um trabalho significativo no desenvolvimento do universo, na discussão sobre quem merece viver ou sobreviver na sociedade dividida entre *Ghouls* e humanos, e na pluralidade de associações e motivos entre os grupos.

A adaptação falhou em entregar essa profundidade, exigindo que o espectador recorresse ao material original para entender o desenvolvimento da trama. Essa corrida fez com que a obra, como um todo, perdesse o sentido progressivamente.

É uma pena, pois *Tokyo Ghoul:re* tem bagagem, discussão e construção que justificam sua classificação como uma história *Seinen*. A violência gráfica no mangá não é o ponto central; o que o diferencia é o trabalho na construção do universo e a complexa discussão ética e social entre os grupos. Infelizmente, o anime não só não teve espaço para explorar isso, como mudou o que pôde, deixando a história confusa e dependente do mangá para ser compreendida.

Perguntas Frequentes

  • Como a primeira temporada de Tokyo Ghoul foi recebida?
    A primeira temporada foi amplamente elogiada por sua qualidade de animação e abertura marcante, apesar de já apresentar algumas simplificações em relação ao mangá original.
  • O que mudou drasticamente na segunda temporada do anime?
    A segunda temporada alterou o arco narrativo do protagonista, Kaneki, fazendo-o se juntar à organização terrorista Aogiri, o que diverge significativamente da trajetória apresentada no mangá.
  • Por que o estúdio Pierrot é frequentemente criticado pela adaptação?
    A crítica se deve à mudança da essência de personagens e da narrativa complexa do mangá *Seinen* para um formato mais acelerado e simplificado, característico de adaptações *Shonen*.
  • É possível entender Tokyo Ghoul:re apenas assistindo aos animes?
    Não, pois a adaptação de *Tokyo Ghoul:re* não corrigiu as inconsistências da segunda temporada, forçando o espectador a buscar o mangá original para compreender a continuidade e o contexto dos personagens.
  • Qual a principal diferença temática entre o mangá e o anime de Tokyo Ghoul?
    O mangá foca mais profundamente em discussões filosóficas, sociais e éticas sobre a coexistência de Ghouls e humanos, enquanto o anime priorizou a ação e alterou o desenvolvimento moral dos personagens.

Se você também se frustrou com a jornada do anime *Tokyo Ghoul* e sua continuação, compartilhe sua opinião sobre os caminhos que a adaptação tomou.