A Verdadeira História por Trás das Máscaras das Amazonas em Cavaleiros do Zodíaco
Uma das polêmicas mais persistentes em Cavaleiros do Zodíaco (CDZ) é a alegação de que a obra é machista, centrada na ideia de que as máscaras das Amazonas simbolizam a submissão feminina. Mas será que essa percepção é precisa? Ao investigar a fundo, descobrimos nuances que vão além da simples questão das máscaras, revelando aspectos surpreendentes da criação do universo da série, inclusive detalhes que foram censurados no anime.
Este artigo mergulha na obra, buscando fatos históricos e mitológicos para entender a verdadeira essência por trás das máscaras e por que, em alguns momentos, elas parecem não fazer sentido dentro da narrativa.
O Surgimento das Máscaras
A primeira aparição das máscaras em CDZ ocorre logo no primeiro capítulo, com Marim, uma Amazona de Prata da constelação de Águia. Sua presença é impactante desde o início: ela é a mestre do protagonista, mas também se mostra extremamente violenta, poderosa e fria. Contudo, por trás dessa postura séria, havia uma grande preocupação com seu discípulo.
O que mais chama a atenção no visual de Marim, além de sua armadura de Prata, é a máscara que cobre seu rosto. Ela não faz parte da armadura e parece inspirada em esculturas gregas.
Vale lembrar que todos os cavaleiros de Atena representam uma das 88 constelações existentes na astrologia moderna. Um fato técnico importante sobre as armaduras é que elas são unissex, graças à magia que as faz modelar o corpo do usuário, adaptando-se tanto a homens quanto a mulheres.
A Regra das Máscaras e Suas Contradições
No mito de CDZ, a regra inicial era que somente homens poderiam ser cavaleiros de Atena. Se uma mulher fosse considerada digna de vestir uma das armaduras, ela deveria abandonar sua feminilidade vestindo uma máscara.
É aqui que a lógica da obra começa a vacilar. Se o objetivo da máscara é esconder a feminilidade, por que as guerreiras utilizavam roupas de ginástica no estilo dos anos 80 por baixo das armaduras, que deixavam suas curvas femininas completamente marcadas? Essa contradição levanta a dúvida: isso é um erro de roteiro, uma atitude machista para rebaixar as mulheres enquanto expõe seus corpos, ou há outra explicação?
Analisando o exército de Atena, apenas a própria deusa pode mostrar o rosto, por ser uma divindade. Para as guerreiras, conhecidas como Amazonas, a regra é rigorosa: se um homem visse o rosto de uma Amazona, ela seria obrigada a matá-lo ou amá-lo.
Essa regra, embora estranha, é tratada com seriedade na obra. Um exemplo notório é a decisão de Shina de Ofiúco de eliminar Seiya com as próprias mãos apenas porque ele viu seu rosto após derrotá-la em batalha. Contudo, a personagem fica confusa, pois, ao mesmo tempo em que decide matar Seiya para restaurar sua honra, acaba se apaixonando por ele.
Essa inconsistência se repete: Seiya não foi o único a ver o rosto de uma Amazona; Aiolos de Leão também o fez, mas esse fato nunca foi explorado. Isso sugere que as regras das máscaras podem ser, em parte, inconsistências da história.
As Origens Mitológicas das Amazonas
Para entender melhor o contexto, é crucial analisar a figura da Amazona na mitologia grega. As Amazonas eram figuras empoderadas em uma Grécia antiga extremamente machista, onde o papel da mulher era restrito ao lar ou à maternidade.
A lenda grega descreve uma sociedade guerreira exclusiva de mulheres que se dedicavam à arte da guerra em treinamentos incessantes, transformando-se em máquinas de combate. Essas figuras mitológicas provavelmente foram inspiradas em grupos reais.
Na mitologia, elas são filhas de Ares, o deus da guerra, e criaram a terra de Temícera, focada em destacar apenas as mulheres merecedoras, tendo a rainha como exemplo de força e sabedoria. As Amazonas aparecem em diversas lendas, como nos trabalhos de Hércules e no confronto com Aquiles durante a Guerra de Troia.
A inspiração para essas figuras pode ter vindo da cultura dos sármatas, onde homens e mulheres tinham papéis igualitários, inclusive nos campos de batalha. Arqueólogos acreditam que as mulheres sármatas, que frequentemente eram sepultadas armadas (25% das sepulturas encontradas são de mulheres com armamentos e ferimentos de batalha), serviram de inspiração para a criação das Amazonas pelos gregos.
Outro paralelo cultural é o das escudeiras na cultura viking, que lutavam lado a lado com os homens. Curiosamente, o termo “Amazona” ainda existe no hipismo, sendo o feminino de “cavaleiro”.
O Erro na Tradução do Título
Um ponto interessante é que o próprio nome “Cavaleiros” em Cavaleiros do Zodíaco é, na verdade, uma tradução equivocada. O título original japonês é *Saint Seiya*, composto por cinco *kanjis*. Traduzindo literalmente, a série seria algo como “Santo Guerreiro Seiya” ou “Santo Seiya”.
Os *kanjis* significam: o primeiro, “sagrado”; o segundo e o terceiro, “lutador” ou “guerreiro”; e o quarto e o quinto formam o nome do protagonista Seiya, que inclui os símbolos de “estrela” e “seta”. O termo “santo” ou “sagrado” reflete o fato de Seiya lutar com a bênção de uma deusa e realizar milagres em batalha.
Portanto, o termo correto seria “Santos Guerreiros”, o que também se aplicaria às mulheres: “Santas Guerreiras”. A popularização do termo “cavaleiro” se deu pela adaptação francesa (*Les Chevaliers du Zodiaque*), remetendo aos cavaleiros medievais europeus que usavam armaduras de metal completas, o que difere da concepção das armaduras de CDZ.
Censuras e Ousadias Visuais
Analisando as referências com mais atenção, percebe-se a ousadia do autor, pois na Grécia Antiga, quem utilizava máscaras no teatro eram os homens, pois as mulheres não podiam atuar em papéis femininos.
Essa ousadia do autor em fazer mulheres usarem máscaras, um acessório historicamente masculino, reforça a ideia de que a intenção das máscaras não é apenas machista, mas também um recurso narrativo.
Foram retirados do anime alguns elementos polêmicos presentes no mangá original:
* **Visual de Marim (Águia):** Sua armadura original possuía uma águia na cabeça que foi removida por lembrar um símbolo alemão.
* **Proteção Pélvica:** A peça pélvica da armadura, que lembrava um cinto de castidade, foi retirada por ser considerada muito explícita. (Cintos de castidade, historicamente, eram considerados ineficazes e insalubres).
* **Armadura de Júnior de Camaleão:** A armadura inicial de Júnior, inspirada em uma estética sadomasoquista de uma revista japonesa, foi censurada no anime. Isso ocorreu porque o autor prometeu criar um personagem com esse tema após uma entrevista, resultando em uma armadura que parecia roupa de dominatrix.
A Explicação Narrativa das Máscaras
Se o objetivo das máscaras é esconder a feminilidade, por que as armaduras expõem o corpo? A regra é tão controversa que é frequentemente ignorada nos *spin-offs* de Cavaleiros.
Em *Saint Seiya: The Lost Canvas*, por exemplo, a Amazona Yuzuriha de Crow usa máscara apenas ao chegar ao Santuário. Já Iuna de Águia em *Ômega* quebra sua máscara em batalha e abandona o uso. Em *Saint Seiya: Santia Shō*, as personagens femininas nem chegam a usar máscaras, pois são protagonistas.
A verdade por trás das máscaras, na minha perspectiva, é mais simples e menos ligada ao machismo: **elas são um artifício narrativo.**
Logo no início, Seiya luta para encontrar sua irmã, que tinha cabelos parecidos com os de Marim. Marim e Seiya vieram do Japão buscando seus irmãos. Essa coincidência faz o público crer que os irmãos já se reencontraram, mas, devido à regra do Santuário, Seiya não percebe que é sua irmã quem o treina. A máscara cria, portanto, uma tensão dramática e um mistério na história.
Embora as intenções do autor pudessem ser boas, a evolução da obra e o bom senso posterior levaram-no a ignorar essa regra em continuações como *Saint Seiya: Next Dimension*, onde as Amazonas aparecem frequentemente sem máscara. Isso demonstra uma mudança de rota para respeitar e exaltar as personagens femininas.
Perguntas Frequentes
- O que significa o título original “Saint Seiya”?
O título original significa “Santo Guerreiro Seiya” ou “Santo Seiya”, indicando um guerreiro sagrado, e não um cavaleiro medieval. - Como as armaduras de CDZ funcionam em relação ao gênero?
As armaduras são unissex; elas se modelam magicamente ao corpo do usuário, vestindo tanto homens quanto mulheres. - É possível que as Amazonas mitológicas fossem baseadas em fatos reais?
Sim, muitos estudiosos acreditam que elas foram inspiradas em mulheres guerreiras da cultura dos sármatas, que eram encontradas armadas em sepulturas. - Qual a razão original para as Amazonas usarem máscaras na narrativa?
O uso das máscaras foi introduzido para criar tensão narrativa e mistério, especificamente para esconder a identidade da irmã de Seiya que o estava treinando. - Por que o termo “Cavaleiros” é considerado incorreto?
O termo “Cavaleiros” é uma adaptação ocidental (principalmente francesa) que remete à cavalaria medieval europeia, enquanto a referência central da obra é a mitologia grega e o conceito de “Santos Guerreiros”.






