Como a Disney está te manipulando em Demolidor Renascido

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A Crise de Identidade de Matt Murdock: Da Profundidade Netflix à Superficialidade da Disney

Já parou para pensar que o Demolidor passou a terceira temporada inteira lutando contra o impulso de matar o Rei do Crime, enquanto lidava com um dilema ético e moral quase insuportável? E que, no fim, toda essa construção parecia ter sido descartada em apenas 14 minutos?

Matt Murdock, ou Demolidor, é um personagem profundo, denso, com uma personalidade forte e convicções éticas muito bem estabelecidas. Inspirado pelo conceito de que a justiça é cega, ele representa a justiça que não pode ser feita em um tribunal – a justiça das ruas, entre vielas e becos da Cozinha do Inferno. Ele usa telhados como pistas de corrida, seus ouvidos como radares contra a opressão e suas mãos como ferramentas para a justiça. Tudo isso é possível graças ao seu reflexo sobre-humano, ouvidos precisos e uma bússola moral construída, em grande parte, pela sua religião.

Essa essência foi respeitada de maneira brilhante na série original produzida pela Netflix. No entanto, com a chegada de “Demolidor: Renascido”, surge a preocupação de que tudo isso possa estar se perdendo. A Penitência, que biblicamente representa arrependimento e perdão, corre o risco de se transformar em um castigo penal, lento e doloroso, para um personagem que amamos ver bem construído, mas que pode ter suas características mais importantes perdidas em um roteiro genérico.

Essa verdade tem sido sutilmente apresentada desde o início da nova série. Apesar da trilha sonora semelhante e do estilo de animação parecido, a produção demonstra claramente como o Demolidor está ruindo: o escritório Nelson Murdock & Page está se partindo, a igreja, o Rei do Crime e a própria cidade estão sendo destruídos para construir um novo Demolidor. Fica claro que tudo o que vimos no passado ficará para trás para que um novo Demolidor renascido possa surgir.

Neste artigo, exploraremos um ponto de reflexão fundamental: como Matt Murdock está perdendo sua identidade psicológica e religiosa para se encaixar nos padrões da Disney. Esta não é apenas uma observação isolada; é uma análise que compara as duas séries e discute os possíveis desdobramentos, que podem levar a um final trágico para a construção do personagem.

A Origem do Homem Sem Medo

Para entender para onde o personagem está indo, é crucial saber de onde ele veio. Criado por Stanley, o Audacioso (uma das primeiras traduções de “Daredevil” no Brasil), ele surgiu pela primeira vez em 1964, na HQ *Daredevil #1*, vestindo seu clássico uniforme amarelo, feito a partir do roupão de boxe de seu falecido pai, Jonathan “Jack” Murdock, morto pela máfia por se recusar a entregar uma luta.

Na época, ele era a personificação do diabo à noite e um implacável vigilante de dia, mas também um advogado cego. Essa história inicial é rica em detalhes, como o trocadilho do nome *Daredevil*, que mistura “audacioso/destemido” com “Devil” (demônio em inglês).

Mais importante é o lado humano da sua criação durante a Era de Ouro dos quadrinhos. Naquela época, o mundo dos heróis era retratado como perfeito, algo que o público começou a rejeitar com o tempo e a repetição de fórmulas. Foi quando Stanley introduziu identidades mais humanas aos seus personagens. Eles deixaram de ser perfeitos, e seus defeitos e erros frequentemente falavam mais alto que seus acertos. A partir desse momento, o universo dos heróis em HQs nunca mais foi o mesmo, com a criação sequencial de personagens como o Quarteto Fantástico (1961), Homem-Aranha, Hulk, Thor (1962), Doutor Estranho, Homem de Ferro e X-Men (1963), e finalmente, o Demolidor (1964).

Ele surgiu como um contraponto à maioria dos heróis, com aventuras mais urbanas, vindo de um dos bairros mais violentos de Nova York. Embora inicialmente apontado como uma cópia do Dr. Meia-Noite, foi nos anos 80 que ele se transformou no personagem que conhecemos hoje, graças a Frank Miller.

Frank Miller e a Reinvenção do Demolidor

Quando Frank Miller assumiu a HQ em 1981, o sucesso foi avassalador. A publicação, antes bimestral, passou a ser mensal. Miller deu vida a histórias icônicas como *Homem Sem Medo* e *A Queda de Murdock*, adicionando profundidade à personalidade de Matt Murdock e enfatizando fortemente a presença do catolicismo em sua jornada. Isso, por sua vez, inspirou diretamente a aclamada série da Netflix.

A série da Netflix, assim como a obra de Miller, era brutal. Lutas em planos sequência, ação selvagem e golpes com impacto seco e muito sangue eram a marca registrada. Adicione a isso um drama envolvendo a complexidade de ser um vigilante cego lutando para consertar uma cidade quebrada sem se corromper, e você tem a essência do personagem.

Matt Murdock é um homem complexo, doutrinado pelo pai a viver dentro das regras e a buscar ser melhor do que ele foi. Essa é a base de sua conduta e devoção, que o movem a querer algo melhor para si e para o mundo, lutando contra a criminalidade à noite e usando as regras da sociedade a seu favor como advogado de dia.

A série da Netflix acertou ao focar no maior motivo do sucesso do personagem: seus fatores pessoais e valores. Vimos isso quando Foggy foi baleado pelo Mercenário, e quando o Demolidor joga o assassino da cobertura do prédio, expressando uma violência que contrasta com sua ética, culminando em um grito animalesco de dor por não conseguir matar seu maior inimigo, Wilson Fisk.

O Dilema da Terceira Temporada: A Linha Cruzada

Por que Matt não conseguiu matar o Rei do Crime? Que linha ele se recusou a cruzar? A resposta está nas suas profundas influências religiosas. Matt Murdock é um católico fervoroso, que, como a maioria dos cristãos, tenta seguir os passos de Jesus Cristo. O código de ética é rígido, especialmente pelo mandamento “Não matarás”. Se essa linha fosse cruzada, ele jamais conseguiria se perdoar, perdendo-se em sua própria escuridão.

Apesar de seu arrependimento ser sua penitência, a filosofia cristã oferece o perdão mediante o arrependimento sincero. Foi exatamente isso que Matt fez ao poupar Fisk, perdoando-o, de forma análoga a Jesus pedindo perdão por aqueles que o crucificavam. Matt usa o Demolidor como último recurso, apostando na lei convencional, mas quando as coisas saem do controle, ele sofre constantemente com a culpa e o arrependimento.

A conversa entre Foggy e Karen Page exemplifica isso: Foggy sabia que Matt sempre daria uma chance de perdão a todos, *exceto* Fisk. Contudo, Matt poupou o Rei do Crime e o perdoou. Essa dualidade o coloca constantemente na corda bamba, mas os amigos como Foggy e Karen o impedem de ser consumido pelo ódio.

O Descarte da Construção: A Crítica a “Renascido”

O que a Disney ignorou completamente no final da terceira temporada foi a construção do verdadeiro Demolidor. Na luta contra Fisk e o Mercenário, Matt foi determinado a matar Fisk, frustrado com a manipulação do criminoso que comprou a polícia, matou testemunhas e zombou do sistema.

A estratégia de invadir o casamento de Fisk, manipulando o Mercenário para gerar vítimas inocentes, foi cruel. Contudo, no meio da confusão, como um reflexo inconsciente, Matt protegeu Fisk do microfone letal lançado pelo Mercenário. Embora isso pudesse ser visto como um furo de roteiro, é mais aceitável interpretar como o corpo de Matt protegendo uma vítima por instinto.

No fim da terceira temporada, Matt derrota Fisk duas vezes: como Demolidor, subjugando-o, e como Matt Murdock, fazendo uma proposta irrecusável para eliminar qualquer ameaça. Ele zomba de Fisk por carregar o segredo do Demolidor, impotente. Essa cena de execução foi uma obra de arte comovente, terminando no grito de dor do Demolidor por falhar em matar seu maior inimigo.

Por que a Disney Ignorou a Ética do Personagem?

O Demolidor da Netflix se apoiava em um pilar que Frank Miller identificou em 1986, ao escrever *A Queda de Murdock*: a história pessoal de Matt Murdock, não do Demolidor. Miller salvou a HQ do cancelamento ao focar no drama pessoal de Matt, que perdeu tudo (casa, namorada, traje) após Karen Page revelar sua identidade. Matt se torna morador de rua, mas se ergue novamente, derrotando Fisk mais uma vez. O sucesso vinha desse drama pessoal e da luta constante na corda bamba, sustentada por seus valores.

Na nova produção, as teorias para essa mudança de tom são duas:

1. **Emulação Superficial:** A série *Renascido* pode ser uma tentativa de emular a primeira temporada da Netflix, com o vigilante de faixa na cabeça dominando os episódios, e a figura imponente do Demolidor com o novo traje aparecendo apenas no final, buscando um impacto semelhante.
2. **Neutralidade Religiosa da Disney:** A Disney pode estar evitando se envolver com religião para ter liberdade de transitar entre suas mídias globalmente, sem censura. Embora compreensível, mexer sem cuidado em um personagem cujo alicerce é a religião é decepcionante.

O drama de Matt não entrar na igreja por se sentir culpado após tentar matar alguém pode ser apenas uma desculpa para remover a religião da equação. Embora exista a possibilidade de ele reencontrar sua fé, a mudança de tom é notável. A morte de Foggy serviu apenas para chocar, descartando um personagem importante sem o devido respeito.

No quesito superficialidade, o Rei do Crime, que era extremamente dependente de Vanessa, muda de atitude após apanhar do Demolidor, decidindo limpar a cidade de vigilantes enquanto perde o respeito do submundo e é traído pela esposa. Embora ele possa dar a volta por cima, a trama parece rasa e inconsistente com o que já vimos do personagem.

No entanto, há pontos positivos em *Renascido*: o foco no tribunal e na advocacia de Matt ao defender o Tigre Branco, sentindo a dor do cliente. As cenas de ação também são bem coreografadas, com violência explícita e muito sangue.

A verdadeira penitência, contudo, pode ser para os fãs, vendo um personagem brilhante se deteriorar nas mãos de um roteiro ambicioso, mas superficial.

Perguntas Frequentes

  • Como o Demolidor surgiu nos quadrinhos?
    O personagem surgiu em 1964, na HQ *Daredevil #1*, criado por Stanley, com o traje inspirado no roupão de boxe de seu pai, Jack Murdock.
  • O que Frank Miller fez para transformar o Demolidor?
    Frank Miller, a partir de 1981, focou na profundidade da personalidade de Matt Murdock e na forte presença do catolicismo em sua jornada, escrevendo histórias icônicas como *Homem Sem Medo* e *A Queda de Murdock*.
  • Qual é a principal influência religiosa de Matt Murdock?
    Matt Murdock é um católico fervoroso e seu código ético é fortemente influenciado pelos mandamentos bíblicos, principalmente o mandamento “Não matarás”.
  • Por que o Demolidor da Netflix não matou Wilson Fisk na terceira temporada?
    Apesar de ter a intenção, Matt Murdock se recusou a cruzar a linha do assassinato devido à sua fé e crença na possibilidade de perdão, seguindo um preceito cristão.
  • Qual é o principal foco da nova série “Demolidor: Renascido”?
    A nova produção parece focar mais no aspecto da advocacia de Matt Murdock no tribunal, como ao defender o Tigre Branco, mas gera preocupação sobre o desvio da profundidade ética e religiosa da versão anterior.