Se você cresceu nos anos 90, provavelmente se lembra de ligar a televisão nas manhãs do Bom Dia & Cia e dar de cara com as intensas lutas de Street Fighter II V. Este anime, que marcou uma geração de brasileiros, carrega uma história repleta de polêmicas, acidentes de percurso e um sucesso que desafia a lógica da época.
Uma chegada acidental
Diferente do que muitos imaginam, o sucesso do anime no Brasil não foi um plano estratégico meticuloso do SBT. Após o fenômeno de Os Cavaleiros do Zodíaco na extinta TV Manchete em 1994, as emissoras brasileiras estavam em uma corrida frenética pela próxima grande febre dos desenhos japoneses.
O SBT tinha encomendado uma animação americana de Street Fighter, mas a produção atrasou consideravelmente. Para tapar o buraco na programação, a distribuidora ofereceu os direitos de exibição de um anime japonês que acabara de ser produzido. Foi assim que o público brasileiro conheceu Street Fighter II V, uma obra que, na verdade, tinha pouquíssima relação com o jogo de luta que dominava os fliperamas.
O desafio da dublagem brasileira
Um dos aspectos mais curiosos sobre a exibição no Brasil é como ele foi traduzido. O anime chegou ao país sem passar por outros mercados, vindo diretamente do Japão. Como os estúdios brasileiros não tinham tradutores para o idioma japonês na época, a adaptação foi um processo quase artesanal.
Nelson Machado, diretor de dublagem da Mega Som na ocasião e a lendária voz do Kiko (do seriado Chaves), precisou encontrar uma pessoa que falasse japonês para traduzir o texto palavra por palavra. Foi um trabalho hercúleo que gerou algumas adaptações peculiares, como chamar Dhalsim de “Bonzo” (uma confusão com o termo Bozan, que significa monge) e a quase tradução de “Hadouken” para “Bola de Fogo”. Felizmente, o diretor realizou uma pesquisa de campo nos fliperamas, percebendo como a molecada chamava os golpes, o que salvou o nome dos movimentos mais icônicos do jogo.
Por que foi tão polêmico?
Embora tenha sido um sucesso absoluto por aqui, o anime foi duramente criticado no Japão. Os motivos principais eram as drásticas alterações em relação à obra original:
- Idade dos personagens: No anime, Ryu, Ken e Chun-Li eram muito mais jovens do que no jogo, aparentando estar apenas começando sua jornada.
- História distorcida: A personalidade dos protagonistas foi alterada para seguir o padrão de animes shonen da época (Ryu mais ingênuo, Ken extremamente rico).
- Motivações dos vilões: Bison, por exemplo, tinha um plano focado em proteger a natureza, o que foi considerado um desvio muito grande do material original.
O legado da obra
Apesar de não ser fiel ao jogo, a animação conquistou o Brasil por méritos próprios: trilha sonora marcante, cenas de luta coreografadas com maestria — graças ao especialista em artes marciais Kenia Salada — e a dublagem que incorporou gírias e expressões que se tornaram inesquecíveis.
O anime acabou sendo finalizado de forma acelerada devido à recepção negativa no Japão, o que explica por que a parte final da história parece apressada. Contudo, para muitos fãs, ele permanece como uma das melhores experiências audiovisuais da franquia, funcionando como uma aventura independente e divertida, mesmo que “fora da curva” em relação ao cânone dos jogos.
Perguntas Frequentes
- Por que os personagens parecem tão diferentes do jogo?
A produção optou por recontar a origem dos lutadores, adaptando suas personalidades e idades para criar uma história de aventura focada em jovens aprendizes, distanciando-se do enredo dos games. - O dublador do Kiko realmente narrou o anime?
Sim. Nelson Machado, que dublava o personagem Kiko em Chaves, foi o diretor de dublagem do projeto e também emprestou sua voz para a narração, criando frases icônicas como “Nós vamos ao encontro dos mais fortes”. - Hadouken significa “bola de fogo”?
Não. A tradução literal é “onda do punho”. Houve uma tentativa inicial de traduzir para “bola de fogo” durante a adaptação brasileira, mas a equipe optou por manter o nome original após consultar os jogadores de fliperama. - Por que o anime foi cancelado no Japão?
O público japonês, muito apegado à história original dos jogos, rejeitou as mudanças drásticas na trama e nos personagens, causando uma queda drástica na audiência logo nos primeiros episódios.




